Reticências arte

“Buazizi”: todas as artes de um só golpe

Por Márcia Costa (jornalista, correspondente internacional do Canal Oito de Dança). Márcia Costa, atualmente  esta morando em Barcelona. Com a vontade de estreitarmos ainda mais nossa relação com ela, o Canal Oito de Dança criou a coluna Reticências arte , para que assim possamos receber artigos sobre as várias experiências vividas pela jornalista durante sua jornada em Barcelona.

Foto Márcia Costa - Bouazizi- Insectotropics

Foto Márcia Costa – Bouazizi- Insectotropics

“Buazizi”: todas as artes de um só golpe

Uma fusão explosiva, brutal e impressionante das artes plásticas com as linguagens do vídeo, da música, da dança e do teatro. “Bouazizi” é o mais recente espetáculo do grupo Insectotròpics, este nome que é uma mescla das palavras inseto e psicotrópico, uma metáfora do vírus, daquilo que incomoda.

O Insectotròpics intitula-se uma companhia de exploradores audiovisuais e inclui os artistas plásticos Xanu e Iex, o músico Tullis Rennie, os vídeo-experimentadores Laia Ribas, VVV e Maria Thorson. Assisti a uma apresentação do grupo durante o Festival TNT – Terrassa Novas Tendências, em Terassa, próximo a Barcelona, no evento que buscou discutir a relação do homem com as máquinas.

Inspirado no duelo entre o bem e o mal que habita cada um de nós e nas diferentes caras do poder, “Bouazizi” mostra como a tecnologia busca vender uma imagem de segurança, armando sua teia, chupando o sangue do homem, causando a barbárie, explicaram os artistas plásticos Xanu e Iex, que me receberam para uma conversa no estúdio onde ensaiam, em Fabra i Coats, espécie de fábrica de criação artística de Barcelona.

O espetáculo foi inspirado no tunisiano Mohamed Bouazizi, vendedor de fruta anônimo que, em dezembro de 2010, cansado de lutar contra a crise e a perversidade burocrática, matou-se ateando fogo em seu próprio corpo em frente à sede do governo, fato que provocou a Primavera Árabe.

O cenário de infraestrutura impressionante permite ao espectador acompanhar, com visão de 360º (movendo-se em torno do palco), diferentes ângulos de uma história que fala de um embate desumano entre o homem e a técnica, o homem e o poder.  Em uma época em que tanto se discute a mescla de técnicas artísticas, a ideia é unir o mundo virtual da tecnologia, que é mais “frio”, com o mundo orgânico das artes, explicam Xanu e Iex. Ao levar as artes plásticas para um local cênico, propõem-se ao público outro tipo de contato com a obra, proporcionando uma emoção diferente da que se sente ao vê-la na parede do museu.

Os dois artistas produzem ao vivo as pinceladas e colagens, que são projetadas sobre outras imagens em movimento em uma tela instalada no palco, em formato de cubo gigante. Assim, interferem de maneira agressiva principalmente em imagens de corpos e rostos humanos, transformando expressões de forma visceral, expressionista – e o interessante é que não sabemos ao certo se há um ator no interior do cubo ou se é apenas uma imagem virtual. No palco, uma atriz-bailarina hora incorpora o afeto humano, hora é tomada pelo lado insano do poder, parte de um esquema viciado que leva Bouazzi a uma morte cheia de agonia. Antes, seu cortejo fúnebre passeia entre os espectadores, levando o público a um contato para além do virtual. A cena final do espetáculo faz referência à necessidade de revolução e lembra a barbárie globalizada.

Muito  material de vídeo é produzido na hora, captado por câmeras bem distribuídas, além de vídeos pré-gravados, vídeos documentais, gerando um excesso de manipulação de imagens. A música é o elemento que integra todas as cenas. Esse conjunto de atores, bem como todo material, é orquestrado por uma só pessoa do grupo, por meio de microfones que se comunicam com cada um. Foram 11 meses preparando o espetáculo, que exige uma estrutura tecnológica cara, aliada a muitas horas diárias de trabalho. A riqueza dos elementos cênicos faz com que o espectador seja chamado a desfrutar a obra por meio de todos os sentidos, principalmente a visão e a audição.

Neste mês de novembro “Bouazizi” viaja para o México e, no próximo ano, haverá nova apresentação em Barcelona. Em um grupo de atitude punk e politizada, a ideia não é fazer arte para agradar, e nem se submeter ao mercado – não foi à toa que o Insectotròpics recusou ofertas de gigantes patrocinadores que queriam controlar sua criação. Em Bouazzi o grupo conseguiu unir drama, bestialidade e beleza. Difícil traduzir esse espetáculo complexo em palavras. Melhor, talvez, falem as imagens:

Ficha artística

Criação, direção, música e produção: Insectotròpics

Cenografia e figurino: Llorenç Corbella

Iluminação: Aleix Ramisa

Direção de atores: Ferran Utzet

Roteiro: Jou Lizarte e Insectotròpics

Artistas plásticos: Iex, Xanu

Música: Tullis Rennie

Video-experimentadors: VVV, Laia Ribas e Maria Thorson

Atores: César Rojas e Padi Padilla

Luz e som: Aleix Ramisa

 

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