Sob o céu de Dali, a casa-arte

Sob o céu de Dali, a casa-arte

Por Márcia Costa (texto e imagens)

Foto Márcia Costa - frente da casa de Dali

Foto Márcia Costa – frente da casa de Dali

Cadaqués. De casas brancas, de barcos coloridos largados na areia ou a balançarem calmos no mar. De clima mediterrâneo, escancarado no sol e no céu. De sonho azulado. De Dali.

Salvador Dali nasceu em Figueres, na região da Catalunya, a poucos quilômetros da pequena  Cadaqués, terra de seus pais. Quando menino passava dias e dias neste lugar recém-saído de uma tela impressionista. A Casa-Museu de Portlligat conta sobre sua vida, sua arte. Casa-arte.  Entremos na alma surreal do artista.

Em 1930 Dali comprou a primeira das oito pequenas casas de pescadores para ali erguer um belo refúgio com a russa Galla, musa e companheira de vida. Até 1972, projetou no espaço de 540 m², sem mexer na estrutura das casas, vários cômodos em níveis diferentes. Escancarou sua personalidade em cada canto, mas mantinha o que era típico do lugar, como as lareiras, um costume do pescador que, ao chegar do mar às 8h, passava a manhã a desfrutar do produto da pesca. Ali, vêm-se móveis de igreja e muitas invencionices do artista.

Por toda a casa, Galla tratou de espalhar suas preferidas sempre-vivas, flor típica de Cadaqués. O amor à musa se materializa na sala oval, uma homenagem de Dali, mobiliada basicamente por um grande sofá a acolher, com bom humor, bichinhos de pelúcia. Galla devolveu-lhe com outro mimo: as amizades do artista, a fama, as caras e bocas, tudo está estampado nas fotos e capas de periódicos que cobrem as paredes do closet decorado por ela. O espaço ainda abriga os vestidos de Galla, agora em processo de catalogação para o inventário.

Obviamente, o gosto excêntrico de Dali é o que mais salta à vista. Seguindo a moda da época de colecionar animais empalhados, tratou de colocar um imenso urso logo no primeiro cômodo da casa, encarregado de saudar os visitantes. Os gansos, seus animais preferidos, também estão por ali – ao todo, ganhou seis, que ao morrer, eram dissecados e eternizados em meio à mobília comprada em antiquários, assim como as portas. Não satisfeito, ainda mantinha canários amarelos e criava grilos.

A natureza era parte de Dali. Ao artista lhe encantava o sol. Tanto que, de um cômodo ao lado do quarto do casal, projetou próximo à janela um espelho para receber os primeiros raios de luz e enviá-los até sua cama, para assim ser lindamente acordado. Diz-se que os espanhóis são os primeiros da Península Ibérica a ver o astro rei.

O ateliê do artista é inundado pela luz. Uma janela de onde via um horizonte enlouquecedor, de dar inveja a Van Gogh. Arte como paranoia. Ali estão todos os objetos do seu trabalho, inclusive o cavalete gigante, suspenso, de madeira, que lhe permitia pintar sentado. Podem-se ver duas últimas obras inacabadas, como se Dali tivesse estado a trabalhar mais um pouco nelas, naquela manhã. Passava muito tempo naquele seu canto, do nascer do sol até o cair da noite. Não à toa, foi um dos pintores que mais produziu obras.

Saindo da casa, a vista se delicia com o jardim insano de Dali. Uma piscina nada discreta e uma obra feita com pneus contracenam com o ambiente natural. Mas são os vários ovos que dominam a paisagem. Essa outra mania do artista foi inspirada na mitologia grega, cujo significado era o nascimento, a gênese. Do jardim, despontam para o mar. Também soberanos, saltam do alto da casa. Apontam para o céu que inspirava Dali e que carrega nuances de azul, rosa, laranja.

A atual Casa-Museu de Portlligat foi a única que o artista teve. Sonho surreal. Ali, sob aquele céu que colore horizontes, viveu praticamente toda a sua vida, durante 50 anos.  Galla morreu anos antes dele, em 1982, aos 85 anos; ele se foi em 1989, aos 90. Era 10 anos mais velha que o artista, com quem não teve filhos, pois ele não gostava de crianças. Foi Paul Elouard que lhe deu uma filha, antes dela conhecer Dali. Ele a roubou do poeta na década de 20, cobrindo-a com fezes de cabra e pulando feito um selvagem. Após a morte de sua musa, Dali ficou extremamente deprimido. “Sem Galla, eu não sou Dali”. Resistiu durante seis anos, sem pintar e se alimentar direito. Sofreu anos com o Parkinson, sobreviveu a um incêndio em seu quarto, e logo foi levado de seu refúgio, em um final triste.

Naquela casa, porém, ainda gritam alto a alegria e a exuberância deste gênio. E ele faz questão de nos saudar em Portlligat.  Sua voz, seus gestos nada discretos, estão registrados no vídeo que é projetado em uma espécie de gruta, onde, esfuziante, anuncia: “Dali está pintando Galla”!

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Um pensamento sobre “Sob o céu de Dali, a casa-arte

  1. Márcia, vc está muito mais encantadora com seus textos de uma delicadeza literária e acuidade jornalística adornadas por sua sensibilidade fotográfica. Perfeitíssimo seu olhar mineiro para a vida de casado de Dali. Com certeza, Galla lhe celebraria.
    Abr.
    Jama

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