A paixão, a tensão, o extremo no flamenco

A paixão, a tensão, o extremo no flamenco.

Por Márcia Costa

Pesquisando sobre o flamenco, fui saber que João Cabral de Melo Neto viveu por 14 anos na Espanha. Seu interesse pelas representações culturais do país o levou à arte genuinamente popular e, inevitavelmente, a esta manifestação cultural que se tornou Patrimônio Imaterial da Humanidade. Em um trecho do poema Coisas de Cabeceira, Sevilha, o poeta parece buscar descrever a dança:

Foto Mariana Lapolli

Foto Márcia Costa

não esparramarse, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer que fazer,
e o do ser, com a incorrupção da reta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa.)

Da raiz às releituras e fusões contemporâneas, o flamenco segue vivo nos pés de muitos bailarinos em Barcelona. Aqui assisti a duas apresentações bem distintas. No tradicional show que é oferecido todas as noites em uma casa em frente ao Museu Picasso, vi a mescla de música e dança típica das origens do flamenco, nascido das culturas cigana e mourisca, da influência árabe e judaica, presentes na região da Andaluzia, Múrcia e Estremadura. Músicas passadas às gerações através de rodas organizadas nas comunidades inspiravam a cena, composta pelo cajón, o violão, o sapateado, o canto e as palmas.

A presença das figuras masculina e feminina era bastante demarcada neste espetáculo. Como numa espécie de duelo, bailarino e bailarina se apresentavam para o outro, nunca ao mesmo tempo, numa sedutora disputa. Uma briga boa – mas quando ela ocupava o palco, todos se rendiam à beleza onipotente da mulher, elemento forte na cultura do flamengo. Trechos do vídeo por Mariana Lapolli.

Já o Neo Flamenco da Cia. Arrieritos usa esta referência forte e apaixonada da dança flamenca em seu gestual contemporâneo, embalado por músicas dos mais diferentes estilos. Em novembro a importante companhia de Madrid apresentou durante o Ciclo (in) Fusión Flamenca El Sollozo del Hierroz, numa fusão da dança contemporânea, de flamenco e de teatro.

Em cena, apenas os dois personagens principais, um casal que se apaixona, uma profunda história de amor inspirada na relação entre Miguel Hernández e Josefina Manresa, marcada por uma época e um conflito. Bailarinos atuam juntos no palco o tempo todo, em diálogo. No desenrolar das cenas, seus corpos se encontram e se desencontram, em momentos de tensão, sensualidade selvagem, mas também de muita sutileza. Trechos do vídeo por Mariana Lapolli.

Tanto no primeiro espetáculo, o tradicional, quanto no segundo, o contemporâneo, estão presentes a força e paixão, marcas dessa tradição espanhola, revivida todos os dias no cotidiano de cidades de diversos países.  Bem incorporado, ninguém fica imune a ele. É que o flamenco toca no “nervio”.

Não à toa, levado por uma faísca, João Cabral de Melo Neto fez o poema Estudos para uma bailadora andaluza. O trecho abaixo, cheio de ritmo, mostra a construção de belíssimas metáforas para a bailadora e sua dança, gesto de puro fogo.

Estudos para uma bailadora andaluza

I

Dir-se-ia, quando aparece

dançando por siguiriyas,

que com a imagem do fogo

inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo

que então possui dir-se-ia:

gestos das folhas do fogo,

de seu cabelo, sua língua;

gestos do corpo do fogo,

de sua carne em agonia,

carne de fogo, só nervos,

carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo

nela também se adivinha:

mesmo gosto dos extremos,

de natureza faminta,

gosto de chegar ao fim

do que dele se aproxima,

gosto de chegar-se ao fim,

de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo

é num ponto desmentida:

que o fogo não é capaz

como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo

numa primeira faísca,

nessa que, quando ela quer,

vem e acende-a fibra a fibra,

que somente ela é capaz

de acender-se estando fria,

de incendiar-se com nada,

de incendiar-se sozinha.

II

Subida ao dorso da dança

(vai carregada ou a carrega?)

é impossível se dizer

se é a cavaleira ou a égua.

Ela tem na sua dança

toda a energia retesa

e todo o nervo de quando

algum cavalo s                                                           

e encrespa.

Isto é: tanto a tensão

de quem vai montado em sela,

de quem monta um animal

e só a custo o debela,

como a tensão do animal

dominado sob a rédea,

que ressente ser mandado

e obedecendo protesta.

Então, como declarar

se ela é égua ou cavaleira:

há uma tal conformidade

entre o que é animal e é ela,

entre a parte que domina

e a parte que se rebela,

entre o que nela cavalga

e o que é cavalgado nela,

que o melhor será dizer

de ambas, cavaleira e égua,

que são de uma mesma coisa

e que um só nervo as inerva,

e que é impossível traçar

nenhuma linha fronteira

entre ela e a montaria:

ela é a égua e a cavaleira.

 

Foto de Mariana Lapolli

Foto de Cia. Arrieritos

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