Em cenas e cores, balões convidam ao voo da imaginação

Márcia Costa (texto e imagens)

Um balão, ao alçar voo, é livre: nem sempre se pode prever aonde ele vai pousar. Da mesma forma, nenhum texto teria a capacidade de descrever “com fidelidade” as imagens de uma intervenção como os Balões, da Cia Etra de Dança. Neste trabalho da companhia, as imagens nos levam a explorar sentidos e sensações.

O significado das imagens formadas em Balões muda conforme o tipo de olhar que recebem. Elas estabelecem uma mediação entre o mundo do espectador e do produtor, a partir de um tipo de realidade. No entanto, não se esgotam em si mesmas, têm lacunas, silêncios, códigos. Vão além da mera ilustração da realidade, de uma pretensão de objetividade que é uma herança do cientificismo positivista e contamina muitas obras de arte. Este espetáculo está saudavelmente longe do realismo explícito – pela forma como cria emoções, impressas nas fotografias dessa intervenção.

A dança, enquanto proposta artística, através das emoções, da subjetividade, imagens complexas, que “alternam o foco subjetivo/objetivo, proporcionam conhecimento, interpretações, divagações – enfim, despertares estéticos que ultrapassam a referencialidade dos documentos convencionais”. É o que diz a pesquisadora Dulcília Schoroeder sobre as imagens complexas.

Ao indicar ideias, emoções e proporcionar processos reflexivos, as imagens deixam de mimetizar a realidade e sugerem um vínculo hermenêutico: ao invés do reflexo, busca-se a indagação, conforme explica Josep Maria Català, da Universidade Autónoma de Barcelona. A imagem complexa permite analisar o pensamento criativo, convertendo-se em uma imagem pensamento, que não se limita a refletir o real.

Este tipo de imagem expressiva se sobrepõe a imagens banais e hegemônicas típicas de certos programas de televisão, por exemplo. Propõem um diálogo sobre as realidades, questionando poderes e dominações estéticas. Elas nos convidam ao campo da interpretação, a uma relação dialética, polissêmica. Reúnem o real, o imaginário, o simbólico e o ideológico, formando “constelações de significados”, diz Català.

A complexidade da imagem promove a criação de metáforas, como nessa intervenção da Cia Etra, onde cada espectador é estimulado a ver, sentir sensações e recriar histórias. Todo ícone tem uma camada metafísica, composta pelo referente real e pelo imaginário, lembra o pesquisador espanhol.

E nesta performance da Cia Etra o balão é o estimulador da nossa mente de criança e promove, invariavelmente, encontros. Dos bailarinos consigo mesmos, com o público, com o espaço e com a arquitetura de São Paulo. Na imagem abaixo, registrada em maio no Centro Cultural São Paulo, a bailarina evoca concentração, entrega, devoção ao silêncio. O corpo busca ser sustentado pela leveza dos balões.

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Na próxima imagem, o balão ajuda a inventar liberdades. Na tarde de sábado, a bailarina se une ao chão e respira, levitando no azul.

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A visão de um balão provoca uma transformação que não apenas visual, também modifica a paisagem, quebrando a frieza de uma cidade como São Paulo, abrindo uma frente para uma performance desestabilizadora e menos mercantilizada.

Nesta imagem que segue, a bailarina e o balão contrastam com a arquitetura de megalópole, interferindo no espaço, numa tentativa de humanização da cidade. O amarelo acrescenta um novo olhar e se harmoniza com o azul.

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Em um outro espaço do Centro Cultural a presença da bailarina em um lugar de passagem interrompe o curso normal com surpresa, humor, ironia, estranhamento, tudo estimulado pela cor laranja. Os tons alegres interferem diretamente na paisagem criando uma cena inusitada e lúdica. Pode-se imaginar também os balões como elemento gráfico, típicos das histórias em quadrinhos, uma representação dos pensamentos que vagam a mente da bailarina. Penso que é como se os balões estivessem preenchidos de interrogações sobre a vida.

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Em outro ambiente, o homem-balão, depois de dançar com um grupo de jovens de street dance, irrompe a porta, à procura de novas brincadeiras.

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Quando o espaço é tomado pela imprevisibilidade de um balão, o público é provocado a participar deste estranhamento por conta de um deslocamento deste objeto, que é colocado em contextos diferentes. Ao mesmo tempo, acontece uma identificação grande com o público, um chamado ao lúdico. Um balão pode evocar muitas imagens, mas pra mim, ele sempre convida à infância, ao exercício livre da imaginação.

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Os Balões em São Paulo, em julho:

A Cia. Etra apresenta instalação e o espetáculo Balões Vermelhos no Sesc Ipiranga. Confira datas e horários em: http://ciaetradedancacontemporanea.wordpress.com/

 

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