Conhecendo Dúplice

Conhecendo Dúplice

Por Ariadne Filipe

Era uma tarde de sábado, fazia calor e eu estava na convivência do Sesc aguardando os Rodrigos entrarem em cena. Vi um pequeno espaço ali circundado por uma fita de contenção e imaginei: nossa, eles vão dançar apenas nesse espaço? Sentei-me e vi dois meninos, literalmente, afinando o microfone, experimentando se o áudio tinha retorno adequado e, ao mesmo tempo, brincando e se concentrando nos próximos minutos, pois faltavam apenas alguns para o início do trabalho.

Enquanto me organizava com minha câmera fotográfica para tirar algumas fotos, o espetáculo de repente havia começado. Dois corpos ali fechados naquele minúsculo espaço me fizeram parar e todos que ali passavam também pararam. O jogo, o duelo havia começado. Alguns adolescentes que assistiram animados à apresentação que os Rodrigos haviam feito no De Improviso correram e se sentaram bem próximos. Comentavam se eles iriam brincar de jogar ping-pong, mal acabaram de falar um dos Rodrigos pegou com rapidez a raquete de ping-pong e começou a brincadeira. Mais pessoas se aproximavam interessadas naquele jogo, naquela duplicidade de informações.

Quando me dei conta, em poucos minutos a convivência estava cheia de pessoas, todas com olhares fixos naquela fisicalidade que misturava ritmo, sons e movimento. Todo o aparato técnico era produzido pelos sons do corpo e também do beat-box que era o que mais chamava a atenção dos adolescentes. De repente, em ondas de movimento, um deles saía daquele espaço minúsculo, que com a mesma intensidade ganhava um espaço maior, em busca de um diálogo com o público que na sua maioria respondia com entusiasmo.

Em uma fração de segundo Rodrigo Cruz sai em disparada e vai ao encontro de uma mãe com um bebê no colo, meu coração disparou, pois a precisão milimétrica dele causou em mim o medo de que ele fosse derrubar as duas. Foi quase, mas não aconteceu, a imprevisibilidade do instante permitiu que logo em seguida, com a maior gentileza e delicadeza do mundo, ele retornasse as duas, mãe e filha, e com uma movimentação ímpar sussurrasse ao ouvido da mãe sorridente “me perdoe”, ela em um balanço tímido com a cabeça aceitou as desculpas dadas por ele com tanta criatividade e gentileza.

Conhecendo um pouco do histórico desses dois artistas não é difícil se afeiçoar ao trabalho. Uma brincadeira que vai ganhando uma cadência física e sonora e cria um espaço de movimento submerso em experiências corporais, sonoras e cênicas.

Em espaço pequeno delimitado por uma fita de contenção, o espetáculo traz uma potência ao ambiente, um circular de propostas que chegam ao público de uma forma lúdica e arriscada, quando ambos fazem entradas e saídas de dentro desse espaço. Um duelo, uma disputa, um jogo que faz o público torcer para quem vai trazer a ideia mais interessante.

Dúplice traz diferentes formas do eu e do outro, das relações, mesmo em disputas, da fragilidade humana, da condição do eu em relação ao outro. As propostas sonoras que envolvem o beat-box trazem uma movimentação que se funde ao improviso e se expandem no espaço.

É interessante perceber que Dúplice envolve questões que os próprios intérpretes – criadores apontam que é a lida do artista, o entender a duplicidade do eu, confundir esse eu, e ambos chamam-se Rodrigo um Cruz e outro Cunha, dois Rodrigos envolvidos na mesma dinâmica e que fazem a gente se confundir a respeito de qual eu eles estão falando.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s