O balão e a vida

O balão e a vida

Por Márcia Costa(1)

 Um grande jardim de balões vermelhos toma conta do nosso campo de visão. A música, criada especialmente para aquele momento, faz doer a alma. Com essas imagens visuais, sonoras e poéticas somos convidados a adentrar o universo do espetáculo Balões Vermelhos, da Cia Etra, apresentado no último sábado (02), no Sesc Santos.

Corpos ocupam, devagar, o campo branco e vermelho. Bailarinos voltam à infância brincando de soltar, um por um, o leve e colorido brinquedo. Graciosamente, também disputam quem explode mais balões.

Lugar de encontro, do cuidado, do contato, de sensações. E como todo encontro em que o afeto se faz presente, há identificação, entrega. Assim, em um dado momento, um corpo suporta e carrega o peso do outro. Em outra cena, os intérpretes caminham juntos, em linha paralela, como que unidos por um mesmo destino.

Encantamento e leveza – uma influência da forma do balão – conduzem muitos dos movimentos. Neste campo, colhem-se balões como flores… Uma bailarina, conduzida por seus longos cabelos, realiza gestos  circulares. Toda essa beleza gestual combinada à intensa música de Tarso Ramos nos leva para um lugar mágico. O que é um balão pra você, esse simples objeto? Ele é a vida.

E viver implica indagações e conflitos. Neste espetáculo de narrativa fragmentada, o elemento surpresa é dado, por exemplo, pelos cortes abruptos – seja na forma de uma gargalhada inusitada, da famosa canção pop que surge sem dizer por que, ou do discurso trágico-cômico do músico que clama, desesperadamente, por atenção nessa sociedade do espetáculo.

Cenas de alegria e de dor se contrapõem. Em uma das mais fortes, uma bailarina ataca violentamente a outra – num acesso de fúria, arranca e destrói os balões que a outra carregava em seu corpo. Ela assiste atônita à destruição de seus sonhos para, em seguida, reconstruir seu corpo, seu ser, representado anatomicamente no chão por suas roupas.

À medida que as histórias transcorrem, os pontos de areia vermelha que compunham o chão do cenário se desfazem, se misturam, imagem que dá a sensação de sangue espalhado diante das vidas que interagem. Assim, enquanto o campo de balões é devastado, uma belíssima obra visual é construída.

Enxergamos a ambiguidade de um balão: leveza e explosão, plenitude e esvaziamento. As crianças, grande parte do público, não resistem: por quererem possuir o brinquedo, roubam balões e destroem o cenário. O diretor do espetáculo, Edvan Monteiro, quando menino, também, inevitavelmente, se apaixonou por eles.


(1) Jornalista e pesquisadora. Doutoranda em Comunicação Social, pesquisa as relações entre arte, cultura e comunicação. É autora do livro De Pagu a Patrícia, o último ato (Dobra Editorial).

Foto de Alessandro Atanes

Foto de Alessandro Atanes

Foto de Alessandro Atanes

Foto de Alessandro Atanes

Anúncios

Um pensamento sobre “O balão e a vida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s