O que queremos da nossa dança?

O que queremos da nossa dança?

Por Ariadne Filipe

Li uma entrevista da Helena Katz publicada em um site no dia 27 de julho, onde ela mostra defeitos e caminhos dos festivais competitivos, especificamente o tão desejado Festival de Dança de Joinville.

É realmente um assunto bem delicado, é uma daquelas feridas que já estão cicatrizadas e não vale muito a pena cutucar. Porém não posso deixar de concordar com tudo que ela diz a respeito.

Quando comecei a dançar meu sonho era ser a primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro como Ana Botafogo, me dediquei ao ballet clássico como nunca, fazia aulas praticamente que o dia inteiro, ensaiava exaustivamente a coreografia a ser dançada no festival. Achava que a única chance que eu tinha de provar meu valor como bailarina era participando de Festivais como o de Joinville. Assim como milhares de estudantes de dança gritava na plateia para incentivar meu grupo, fazia gritos de guerra para dominar território. Todas essas coisas que prevalecem até hoje, só que numa estrutura maior, mais organizada e mais rica.

Um dia indo a esses festivais percebi que existiam milhares de meninas iguais a mim, com o mesmo sonho e com o mesmo desejo, lutando pelo mesmo objetivo que eu, ganhar e ser a melhor. Aquilo me frustrou, pois não queria ser igual a todo mundo, começou a ficar cansativo ver sempre as mesmas coisas. Então me afastei da dança, pois ela não fazia mais sentido para mim, fui viver minha vida agora seguindo uma carreira universitária. Fui a faculdade e me dei conta de que aquele sonho de menina havia sumido.

Então o universo conspirou, saía de uma aula de filosofia e seguia com um grupo de amigas para a lanchonete e vi um cartaz que dizia: “ Audição para grupo Adejo, auditório A as 13:00hs”. Uma menina encostou ao meu lado e disse: “Interessada em ser bailarina do grupo Adejo?”. Olhei para ela e não respondi nada, dei um sorriso e sai.  Não sei o que aquele pequeno cartaz fez comigo, mas sei que ele resgatou algo em mim que a muito estava adormecido.  Decidi fazer essa audição.

Cheguei meia hora antes do horário sentei no fundo do auditório e observei as pessoas que iam chegando para fazer a audição. A maioria com roupas confortáveis, mas nenhuma com características de bailarina, quanta ingenuidade a minha! Me aproximei, preenchi a ficha e me pediram para ir me aquecendo que a professora estava chegando para dar aula.

Embora o estranhamento fosse grande em relação aquele ambiente que não parecia nem um pouco com uma audição de dança. As pessoas estavam descontraídas, conversando, rindo se divertindo.  A professora chegou e a aula começou, fizemos meia hora de ballet e em seguida ela ensinou uma coreografia.

Quando terminamos ela disse que até o final da semana colocariam na porta do auditório o nome dos alunos que passaram.  Peguei minhas coisas e segui para a saída, então a professora me chamou e falou: “ Você pode começar segunda, chegamos ao meio dia”.  Uma súbita felicidade tomou conta de mim agradeci e saí correndo para contar ao pessoal da minha turma sobre a audição.

Fiquei o resto da semana ansiosa esperando segunda chegar, peguei minhas coisas e fui para o meu primeiro dia. A professora e diretora do grupo explicou como funcionavam as aulas e que o Grupo trabalhava com dança contemporânea, no passado eu desprezava dança contemporânea (riso).  Na verdade aquela audição que eu fiz era para substituir uma das meninas que havia passado no vestibular para dança na UNICAMP e iria deixar o grupo. Elas me disseram que teria que aprender todas as partes dela no espetáculo que eles estavam montando para apresentar no final do semestre em um evento de artes da universidade. Só sei que minha entrada para esse grupo abriu meus olhos para algo novo, para outras perspectivas e ali descobri que a dança que eu queria não era mais o ballet clássico, era algo que estava além da minha compreensão ainda.

Dali fui parar em Fortaleza no Ceará, entrei para o Colégio de Dança do Ceará que formava bailarinos em nível técnico. Minha admissão no Colégio de Dança se deu através de uma audição que nunca havia visto tanta gente inscrita, era pra lá de 200 bailarinos para 20 vagas. Fui uma das escolhidas entre os 20, fiquei muito feliz, não me importava mais o que iria enfrentar durante aquele curso, afinal deixei tudo para trás, família (que não aprovou minha ida para Fortaleza), namorado (terminamos claro), amigos e tudo de seguro que eu conhecia para viver o desconhecido, o imprevisível, o NOVO. Essa era a palavra que eu procurava, foi a responsável em me guiar até o Colégio de Dança, onde conheci na minha opinião um dos melhores professores de ballet clássico do Brasil, Flávio Sampaio que me ensinou o que é ser artista, me mostrou as inúmeras possibilidades, me ensinou a enfrentar meus medos e a acreditar na minha dança. O outro grande responsável em me ajudar a manter esses valores que tento levar até hoje, nessa vida difícil de ser artista é meu companheiro, do qual divido os palcos e minha vida pessoal.  Fiz novos amigos, enfrentei diversas dificuldades de adaptação a cultura, totalmente diferente do que eu estava acostumada em Santos.  O Colégio de Dança me proporcionou aulas com tantos profissionais importantes no cenário brasileiro e internacional que perdi as contas.

Enfrentei a primeira grande descoberta de mim mesma quando um dos módulos obrigatórios do curso do Colégio de Dança foi o LUME.  Eu odiava o curso, mas queria estar nele, me vi em confronto comigo mesma diversas vezes, mas não desisti. O Colégio de Dança e os responsáveis por ele, abriram tantas portas na minha vida que era difícil escolher qual era melhor de entrar. Nunca mais participei de Festivais Competitivos, pois percebi o quanto eles eram inúteis para a minha dança, eles são exatamente o que a Helena Katz fala na entrevista que mencionei no início desse texto.

Descrevi uma pequena parte da minha experiência com dança para pontuar uma coisa que vem me deixando desconfortável em relação ao que se conhece de dança na cidade de Santos.

Confesso que sou de uma época em que existiam muitos grupos de dança na cidade, onde se respirava dança, onde existiam muitos profissionais produzindo e inovando, vi surgir o Dança de Rua do Brasil, assisti empolgadíssima a primeira apresentação do grupo deles dirigido e coreografado por Marcelo Cirino, me lembro até do figurino que eles usavam.  Mas esse tempo se acabou e foi nessa época que eu também deixei para trás a cidade em busca de outras coisas.

Meu retorno se deu a quatro anos, vim por motivos pessoais, mas nunca para deixar de se fazer o que faço até hoje que é dançar. Fico feliz de saber que a cidade possui um corpo estável que lutou muito para hoje ter seu trabalho reconhecido e ser remunerado. Digno.

Porém tenho que pontuar que não existe apenas isso na cidade,  defendo agora os artistas, grupos e companhias independentes que produzem com recursos zero, sem apoio nenhum e sem o devido reconhecimento de sua existência, na cidade, apenas são reconhecidos fora, isso é triste.  Esse texto da Helena Katz vem muito a completar esse meu desconforto, não desmerecendo as conquistas nesses festivais, justo, pois trabalharam duro para isso. Mas a dança não se resume somente a isso, um sistema que funciona sempre igual, não revoluciona, não quebra paradigmas, não fomenta.  Ainda acredito que as pessoas podem tirar as vendas dos olhos e enxergar essa outra parcela de artistas, mas não cabe somente as pessoas, cabe também a nós artistas encontrar ferramentas que contribuam para esse reconhecimento. Um exemplo disso é o Laboratório de Pesquisa e Investigação Corporal,  Artes do Corpo, o Laboratório de Sensibilidades, o Projeto De Improviso e outros que são uma pequena gotinha no oceano de grandeza. O Sesc ano passado e esse ano trouxe inúmeros profissionais de dança  para cursos que só davam artistas independentes, não apareciam nenhum estudante de dança de academia nenhuma, parecia até ser proibido. Fica até parecendo tabu. Precisamos nos mobilizar e mudar essa mentalidade enraizada e acomodada, afinal ninguém quer perder conforto não é?

Fica aqui nesse texto meu desabafo e também para refletirmos nossa postura enquanto artistas e o que queremos com nossa arte. E acho que combina bem com esse meu desconforto uma frase que ouvi muito essa semana. “ A técnica não forma um bailarino. A técnica organiza o que intuitivamente já esta lá. Primeiro um bailarino deve aprender a dançar. Depois ele vai estudar uma técnica.” (Luiz Arrieta).

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s